sábado, 16 de janeiro de 2010

UMUNDUNU - O JORNAL

Em uma Nova York que ainda ostenta as torres gêmeas solenes e intactas, as câmeras remetem ao cotidiano do The Sun. É a corrida frenética dos jornalistas em busca do furo de reportagem diário.

O filme se concentra no assassinato de dois homens brancos cujos cadáveres são encontrados em um automóvel abandonado na periferia da cidade. Dois rapazes negros que passam pelo local são vistos próximos ao carro por uma testemunha e apontados como os principais suspeitos. Começa então a caçada policial que acaba por prender a dupla sem provas suficientes e sem quaisquer antecedentes criminais.

Na redação do Sun, em meio à efervescente guerra de egos e as questiúnculas subjetivas, cada um busca fazer sua parte para encontrar a manchete apropriada, um título para a primeira página da manhã seguinte. Faltam, todavia, as fotos dos acusados e as declarações de um representante policial para sustentar a sugestão aprovada na reunião de pauta. “Foram Agarrados” – e logo abaixo as faces suspeitas.

Henry Hackett, protagonizado por Michael Keaton, jornalista, vive o dilema entre a insegurança de sua esposa, prestes a dar à luz ao primeiro filho, e a perspectiva de mudar de emprego. Ele está agendado com o editor chefe do concorrente de maior expressão, uma porta para dobrar seu salário. Durante a entrevista, porém, percebe que aquele que talvez seja seu novo chefe possui uma versão confiável para o caso dos assassinatos e, sorrateiramente, surrupia-lhe as anotações pessoais. Ali encontra nomes e indicações de fatos que, além de demonstrarem a verdadeira motivação do crime, definitivamente inocentariam os suspeitos presos.

Após a devida checagem, convencido que pode mudar o rumo das investigações, volta então ao Sun para pleitear a mudança da manchete para “Não Foram Eles” e sugere o uso das mesmas fotos, pois a edição já está fechada e as máquinas estão no ponto para rodar os primeiros exemplares. A editora chefe reluta em manter as coisas como estão e descarta a possibilidade.

Convicto e, sobretudo alicerçado na informação de um policial, sua fonte de credibilidade irretocável, o repórter luta feroz e impetuosamente, não somente para a publicação de seu furo de reportagem, como também pela preservação moral daqueles cidadãos.

A trama se desenvolve em torno do impasse ético. Soltar a manchete aprovada em pauta para atender a urgência cronológica a serviço do interesse comercial; ou, como pretende nosso protagonista, travar as máquinas, brigar, sangrar literalmente, “fazer parar o tempo” visando a integridade profissional e a observação dos direitos do cidadão.

A trama remete à São Paulo, março de 1.994 e o caso escola Base, cujos proprietários e colaboradores, acusados de pedofilia, tiveram suas vidas devastadas, não só pela polícia, como também por grande parte da mídia e, mesmo depois de provada judicialmente a inconsistência das acusações e da retratação dos veículos de comunicação, jamais recuperaram suas perdas morais e materiais.

Hoje em dia a internet resolve esse tipo de questão?

Claudio Zumckeller

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

REALPOLITIK - QUER PAGAR QUANTO? QUER PAGAR QUANTO?


É só até amanhã, pessoal. Pode vir que preço assim não tem igual!

Pode até parecer comercial de alguma loja de varejo, mas infelizmente não é. Essa é a realidade de um dos principais cursos de formação profissional do país. A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), do dia 18/06/2009, em banir a necessidade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, fez com que surgissem inúmeras dúvidas nas cabeças de quem já era formado, nos estudantes e nos que já escreviam mesmo não sendo jornalistas formados. A partir de agora qualquer pessoa é um jornalista? Basta saber escrever e eu posso ser um jornalista?

Antes de tudo, lembremos que as maiores revoluções jornalísticas não foram feitas por jornalistas. Vide a saudosa revista Realidade. Apesar da não necessidade diploma, as grandes empresas continuam exigindo que seus funcionários obtenham formação superior. Com raras exceções, afinal existem bons médicos escrevendo para revistas de medicina, engenheiros, veterinários, arquitetos, todos escrevendo artigos para meios de comunicação de suas respectivas áreas. Apesar disso, todos são auxiliados por jornalistas, seja na redação, na edição ou diagramação da matéria. Então, sem chorumelas.

Precisamos nos esforçar mais. Já fomos considerados o quarto poder - os outros três são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário -, onde nos perdemos?
Agora o Ministério do trabalho liberou registro de jornalista para qualquer cidadão. Serão chamados de Jornalista/Decisão STF. Tudo bem, mas o caso não é este.

Sempre em meio às crises e complicações surgem pessoas querendo se aproveitar da situação. Em todos os meios existem os bons e maus profissionais e no jornalismo não haveria de ser diferente. Vasculhando pela internet duas coisas nos chamam a atenção, o primeiro é um anúncio no site de relacionamentos ORKUT, o anúncio dizia “SEJA UM JORNALISTA ONLINE – Curso 100% prático online por apenas R$40,00. Receba o seu certificado em casa.” R$40,00 por um diploma, por uma faculdade, por um curso de jornalismo. O segundo é ainda pior, um grupo que se denomina Sindicato Nacional dos Jornalistas Profissionais Liberais (http://www.sinaj.org.br/), com sede na cidade de Carapicuíba, grande São Paulo, oferece gratuitamente, ou quase, um curso para jornalistas, basta se filiar ao sindicato. Pagando uma taxa inicial de R$76,00 e uma mensalidade de R$26,00, você teria direito há inúmeros benefícios e ainda ganharia o curso de jornalismo inteiramente grátis.
Um jornalista em 30 dias. Jornalista não. Apenas um diploma... Oportunismo barato.

Segundo Alcimir Carmo, diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo essas pessoas não passam de aproveitadores, estão ganhando dinheiro à custa de pessoas mal informadas. Ainda diz que infelizmente estão se utilizando de uma confusão criada pelo SFT e que não foi muito bem esclarecida à população.

Então, camaradas. Lembrem-se: tornar-se jornalista é fácil e rápido. Ser jornalista é outro papo.

Renato de Souza
e Felipe Payão

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

UMUNDUNU - OS CABEÇAS DE TURCO

Creio que daqui a cinquenta anos, quando, talvez, eu não exista mais, CONTINUANDO, PORÉM A EXISTIR O PALESTRA - O PALESTRA CONTINUA, como diz o De Martino, o vezo que toma os palestrinos a cada derrota do seu quadro, também continuará, sem esperanças de desaparecer. É este, sem dúvida alguma, um vezo que nasceu com o Palestra e, logicamente, só poderia morrer com o Palestra, mas, o Palestra... Não morrerá.

Na hora da despedida, o palestrino - triste e cabisbaixo, ou então, muito zangado - limita-se a critica. Não sabe fazer outra coisa. Critica em primeiro lugar, a diretoria; critica, depois, os jogadores, critica o campo, os juízes, a entidade diretora, tudo. Por fim, na ânsia desastrada de desabafar, acaba criticando a si mesmo, porque, sendo ele um sócio e um torcedor, ao mesmo tempo, criticando os palestrinos de todos os tipos, critica, logicamente, a si mesmo.

Que se há de fazer? - Nada. Moléstia sem cura.

Todos aqueles que porfiam, desde a sua fundação, nas hostes palestrinas conosco, devem estar lembrados, com certeza, de todas as crises e de todos os casos em que determinados jogadores, determinados diretores, tiveram que bancar como soe dizer-se vulgarmente, os "CABEÇAS DE TURCO". Se não se encontra um culpado, um "BODE EXPIATÓRIO", não ha sossego para o palestrino na hora da desgraça.

Eu me lembro perfeitamente de todos os jogadores palestrinos que passaram pela guilhotina da bílis concentrada do "fan" palestrino.

Quando o Palestra tornou-se um clube de peso, o jogador visado foi Ministro. No dia da derrota, a culpa recaia no Ministro, que não se interessara bastante no encontro, que matara o jogo de Caetano, que se demonstrara displicente como resultado do encontro, e o resto. Isto, o que se diz hoje de um jogador "cabeça de turco", dizia-se também naquela época de iniciação palestrina.

Depois de Ministro, foi Heitor, o Ettore, lendário dos palestrinos. [...] Cada vez que o Heitor devia jogar contra o Paulistano era aquela incrível ladainha de sempre: o homem contra os pupilos de Antônio Prado Junior, não sabia ou não queria jogar, não sabia chutar em gol, não queria ganhar o jogo.

Depois, veio a vez Romeu. A cada derrota do Palestra, lá ia no embrulho do mais espalhafatoso desabafo hepático dos palestrinos, o nome do pobre Romeu, que até as iras das Julietas palestrinas tinham que suportar com franciscana paciência.

Veio a vez de Jurandyr. E foi aquela tragédia que todos sabem.

No fim da série, está presentemente o Luisinho Mesquita. Nunca, na minha longa vida de cronista bisbilhoteiro esportivo, vi eu tanta paixão, em formas diversas, envolver um jogador como se dá com o caso do Luizinho. Nenhum jogador, no Palestra ou fora dele, teve o privilégio de açambarcar tanta defesa hiperbólica e tanta censura ilimitada, como o Luizinho. Ou o Luizinho, no gênero futebolístico, é uma personalidade inconfundível, ou se trata de um episódio de loucura coletiva.

O Luizinho pode-se orgulhar de representar na história, longa e rica, de todos os episódios mais característicos do Palestra, o maior "cabeça de turco" da sua produção futebolística.

Para mim, o fato não tem expressão individual. Cito-o apenas como exemplo. Porque estou convencido, há muito tempo, que o palestrino em geral, salvo várias louváveis exceções, tem mais queda para destruir com insultas críticas, do que construir com a sua colaboração sensata. O estádio... Inacabável... E a piscina, que o digam. Mesmo porque, destruir é mais fácil do que construir. E custa menos tempo, menos dinheiro e menos aborrecimento.

Paciência!

No entanto, não desanimemos.

Façamos com o De Martino, o velho De Martino, o eterno otimista de todos os tempos, sempre alegre e confiante que nunca, jamais desespera. A piscina virá. O Palestra continua. A piscina... Virá. O Palestra... Continua.

* texto de Vincenzo Ragognetti, jornalista, escritor e, acima de tudo fundador do Palestra Itália, publicada em maio de 1941, na Revista Vida Esportiva Paulista, muito pertinente aos dias atuais vividos pelo Palestra Itália-Palmeiras.

Enviado por Gabriel Lopes

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

REFLEXPRESS - SURPRESA ESPANHOLA - SINAIS DE CONTÁGIO

Surpresa espanhola – Sinais de contágio

Há muito, eu sequer percebia os carteiros. Se tivesse refletido, antes de ontem, sobre esta profissão, concluiria que ela estava extinta. Entretanto, ao atender ao toque insistente da campainha e me deparar com aquela figura silenciosa e solenemente uniformizada que, com uma caneta na mão, indicava o local onde eu devia assinar, deixando assim impressa a confirmação de recebimento, pasmei. No verso do envelope o remetente inscrito era Pedro Guítar Peralta, falecido neto do falecido El Canário de Madri, pai do também falecido Juan Melchior que, em fuga da guerra civil espanhola, atracara em Santos.

Sem muita conversa, assinei, agradeci e me tranquei curioso e perplexo.

Na noite anterior àquela tarde, sonhei que estava observando a mim mesmo enquanto dormia e, me vendo a sonhar chegava a conclusão que eu era, naquele momento, três pessoas. Um que dormia a sonhar por algumas horas, outro que desperto sonhava o tempo todo, e o terceiro que refletia sobre os dois.

Não devo neste momento concluir que possa haver alguma ligação entre esses dois fatos, seria pura especulação, o que diriam meus amigos e colaboradores em projetos científicos de curto alcance. Isso não é conhecimento, não é informação. Que utilidade prática teria tal elucubração! Esbravejariam com exaltadas jugulares.
Apressei-me então, em abrir a correspondência que dizia assim:

“Trebisonda, 28 quase 29 de fevereiro de ano incerto

Caro pupilo.

Os Mitos e as Ideologias povoam o universo cultural. A questão do processo evolutivo é complexa. Retroceder e progredir podem estar presentes em uma única e mesma atitude. O inconsciente é universal. A consciência quando anuncia, revela a multiplicidade de enunciados.

Quanto mais impresso, mais literal, menos real. As subjetividades dialogam. O outro traz, em seu íntimo, chaves para o exame do eu. Essa relação intersubjetiva objetiva-se. Os conteúdos dessa linguagem são diversos, porém há, como que um campo limitado, em que se combinam infinitas formas. As sete notas musicais e as possibilidades melódicas e harmônicas pactuam uma relação análoga.


Besos mi querido.”


Claudio Zumckeller